O poder da memória: sentimentos de quem recorda

Por Aline Torres
O livro “Deus T’Abençoe” foi destaque no jornal Verde Vale, de Mineiros-GO

Poucas coisas são mais prazerosos que livro fresquinho saído da gráfica. Livro nosso. Da Construtores de Memórias, projeto maturado com amor.

Escrever dá um trabalho danado, muitas horas-bunda na cadeira a procurar o melhor verbo, a costura ideal, tecendo, cortando. É um trabalho de artesanato mental.

Às vezes bate a exaustão, é trabalho duro, pra poucos, dá vontade de desistir, sair correndo rua afora. Mas daí a gente para e relembra o propósito. O que fez um casal de repórteres abrir uma editora de biografias, histórias de gente real, de pessoas extraordinárias, quase sempre anônimas. Nós queríamos o imperecível. Queríamos oferecer um bem imaterial que não se dissolvesse com o tempo, com as guerras, com as crises financeiras, com a morte.

Diferente da redação de jornais, onde uma história definha para que outra possa nascer, buscávamos a preservação de vidas.

Mais prazeroso que livro fresquinho foi saber que um sonho nosso é também sonho de muita gente.

Nas nossas três primeiras obras não fomos atrás dos clientes, eles vieram até nós com histórias muito diferentes entre si, mas com uma essência em comum. Eles não queriam que as pessoas que amaram se perdessem no correr dos dias. Acreditavam que preservar suas memórias seria a maneira amorosa de mantê-los vivos, a nos ensinar, a fazer parte da casa, da família.

Superação

Edson perdeu muita gente importante. Penou com as durezas da vida. Mas desejou fazer uma biografia quando soube que o primeiro netinho ia nascer.

“Eu queria deixar como lembrança a história dos bisavós e dos tios, pessoas que ele não iria conhecer se não fosse o livro. E também a minha própria história, que é de luta, de superação”, disse Edson.

Assim nasceu o livro Os Recomeços de Galego.

AMOR E LUTO

O segundo foi o Aires. Sua esposa Ivete faleceu em 2011 por leucemia e o deixou com um filho muito pequeno, o Vitor. Ela é a mulher da sua vida, mulher fascinante. Ele queria homenageá-la e queria que o filho tivesse a oportunidade de conhecer profundamente a mãe. Queria que ele pudesse reler o livro em diferentes momentos da vida e de lá tirar os ensinamentos que vai precisar.

Foi como surgiu a biografia em primeira pessoa Minha Vida em Direção ao Mar.

“O livro é belíssimo. Foi escrito de uma forma leve, gostosa de ler. Escolheste muito bem o Marcone. Ele é especial mesmo. É uma história de vida linda que merecia uma atenção especial. É de uma delicadeza que faz jus a Ivete. Nada menos do que ela merecia. Adorei ter conhecido mais da vida dela e de vocês, por extensão. Sei que é um legado ímpar a ser deixado pelo Vitor e seus descendentes. Eu me emocionei muito, imagino pra ti. E cada vez que abro o livro penso nela sem parar. As fotos que vocês juntaram são demais. Eu não paro de me emocionar”, disse Isabel, que foi colega de trabalho de Ivete.

SAGA

O terceiro cliente a nos procurar foi o Sergio. Há anos ele juntava pesquisas e documentos sobre a vida dos pais, dois italianos que vieram parar no Centro-Oeste brasileiro, nos anos 50, num projeto de colonização de um ex-ministro de Getúlio Vargas. Sergio acreditava que daria um bom livro, mas não encontrava ninguém que tivesse condições para escrevê-lo, até que nos conhecemos. Foi um trabalho bonito, de muitas lágrimas, que originou o romance histórico Deus T’Abençoe.

Sergio Marchiò entrega um exemplar do romance histórico “Deus T’Abençoe” a uma amiga de seus pais

Seu depoimento no jornal Verde Vale, de Mineiros-GO, mostra a relevância da obra para ressignificar a existências dos pais e de personagens importantes no Brasil e na Itália.

“Na minha família tem gente que chora só de ler o índice. O meu filho, por exemplo, não conhecia a história e passou a conhecer. Meus irmãos não tinham memória tão boa, agora têm. É um livro gostoso e vale a pena ler.”

Retornos como esses nos motivam a seguir em busca de novas histórias. Edson, Aires e Sergio agora contam com preciosas relíquias em suas estantes. Possuem a memória de bons tempos ao alcance das mãos.

Mais prazeroso que livro fresquinho é saber do poder emocional contido no nosso trabalho.

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