Cinco princípios da Escrita Criativa

Por Aline Torres

A arte não é inata, sopro de musas gregas. Ao contrário, exige trabalho e técnica. Como disse o pintor Pablo Picasso, “se a inspiração quiser vir, ela que venha, mas vai me encontrar trabalhando”. Esta é a regra.

Por décadas, Tom Jobim ensaiou dez horas por dia no seu piano. Os editores tiveram que arrancar das mãos de Guimarães Rosa o clássico Grande Sertão: Veredas, de tantas vezes que ele reescreveu. Erico Veríssimo levou quinze anos para concluir sua obra-prima, a trilogia O Tempo e o Vento.

Então, não subestime a escrita. E muito menos superestime sua capacidade literária. Leia compulsivamente, faça exercícios textuais diários, estude, se cobre, vá sempre em frente.

O pensador inglês Samuel Johnson deu a dica de mestre no século 18 “O que é escrito sem esforço em geral é lido sem prazer”.

Para dar uma forcinha, a Construtores de Memórias elencou cinco princípios da escrita criativa baseados nos estudos da professora Noemi Jaffre, doutora em Literatura Brasileira pela USP e crítica literária da Folha de S. Paulo.

 

1 Escrever é reescrever

O básico para quem quer escrever é ler. Tudo. Literatura clássica, moderna, contemporânea, brasileira, internacional, bula de remédio.

Lendo de tudo você deve ler também o que escreve. E aqui está o pulo do gato: não fique satisfeito de primeira. Se você achou boa sua primeira versão de um texto é mais fácil que seja por preguiça do que por genialidade.

Ao reler você corrigirá os elementos literários que passaram despercebidos no fluxo da primeira narrativa. Coragem. Não é fácil. Exige do corpo, da mente, do espírito, mas vale a pena.

 

2 Evite rebuscamentos

Exceto se você estiver escrevendo a pauta do STF, evite rebuscamentos. Fuja desta cilada. Simplicidade é essencial para boa literatura. Concisão, precisão e exatidão.

Eruditismos são artificiais e cafonas. Use poucos adjetivos e corte muito, até que ele fique com o mínimo de palavras, expressões, recursos e construções indispensáveis.

Um conselho sábio:

O que o senhor diria a um jovem poeta que deseja construir seu objeto?

Primeiro, que evite sempre a palavra abstrata e prefira a palavra concreta. Eu acho que a palavra maracujá é muito mais poética do que melancolia, porque maracujá você sabe o que é. Se eu ponho num poema maracujá, estou pondo um objeto diante de sua vista; se ponho melancolia não, porque tenho um conceito de melancolia, você tem outro. Cada pessoa chama tristeza, melancolia, depressão e essa coisa de um estado diferente. Porque usando essas palavras abstratas você não pode ser preciso. Você dilui a poesia porque usa uma palavra que tem dez sentidos, cada pessoa dá o seu sentido a essa palavra, ao passo que maracujá ninguém confunde com manga.

(João Cabral de Melo Neto, Revista Isto É Senhor, janeiro de 1990)

 

3 Intencionalidade

Na literatura nenhuma palavra é inocente. Elas devem ter intenções.

Se usamos gírias, língua oral, língua erudita, prolixidade, se cometemos erros gramaticais, se a personagem é plana ou esférica, se o foco narrativo é em primeira ou terceira pessoa, se o tempo verbal é no presente ou no passado, tudo deve ser cuidadosamente pensado e elaborado. Nada, na literatura, é banal.

 

4 Originalidade

Originalidade vem de “origem”, ou seja, do passado. Qual seu repertório?

Este mergulho serve para produzir algo autêntico, já que ninguém é igual.

Portanto, para se atingir a originalidade em um texto literário não adianta tentar produzir o novo pelo novo, gratuitamente. Como já vimos, na literatura, nada é gratuito.

Outro aspecto fundamental para se pensar a originalidade é o ponto-de-vista, ou a perspectiva adotada para se abordar determinado tema.

Trata-se de um dos elementos mais importantes e transformadores para se elaborar um texto literário diferenciado. Grande parte dos temas sobre os quais gostaríamos de falar já foram explorados, de várias maneiras diferentes e, muitas vezes, muito bem. Amor, morte, guerras, nascimentos, rompimentos, trabalho, o cotidiano, a cidade.

Como fazer para que a abordagem destes temas soe nova para o leitor? Manuel Bandeira já dizia que “a poesia está no amor como nos chinelos”. Portanto, não é tão importante o assunto de que tratamos, mas, na realidade, a forma como o tratamos.

 

5 Estranhamento

Um escritor atento nunca se conforma com o estabelecido, nunca aceita de forma inerte aquilo que está dado, as coisas como elas são. Ele sempre quer transformá-las, pensando em como elas poderia ser ou ter sido, ou em como elas poderiam não ser ou não ter sido. Ele vive, portanto, em estado de estranhamento, espantando-se com as pessoas, os lugares, as coisas e, principalmente, com as palavras e com a linguagem, que, para ele, nunca são automáticas.

 

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